Vários porquês
Conforme a vida passa a gente vai construindo nossos
caminhos. A gente consegue um bom emprego, é promovida, compra um carro, compra
uma casa, é promovida novamente e tudo segue entre barrancos, conquistas,
alegrias e muito chororô.
Tem gente que casa, tem filhos, continua estudando, se separa
ou prefere que nada disso faça parte de sua história. Tudo bem. A vida vai
seguindo até o dia em que você realmente perde o chão.
O meu perder o chão foi a morte do meu pai, há quase três
anos (engraçado que estou escrevendo este texto na data de seu aniversário). No dia eu realmente saí do meu corpo e não sei pra onde eu fui. Fiquei
nesse lugar sofrendo – às vezes eu ainda me encontro lá – tentando entender o
motivo da existência humana. Lógico que não cheguei à conclusão alguma, mas, na
época, tomei algumas atitudes que eu não
sabia ao certo aonde me levariam.
(Parênteses pensando: durante as conquistas você não pensa muito; durante as alegrias encontradas nos altos e baixos, nosso automático está ligado. Por que a gente pára diante da morte? Por que ela nos faz repensar tão profundamente em tudo?)
Uma delas foi terminar um relacionamento de oito anos com
uma das melhores pessoas que conheci na vida. Ele compreendeu meu momento, o que me leva a crer que nós dois tivemos muita sorte por termos nos reencontrado nessa vida.
A segunda delas foi ter vendido o apartamento que havíamos
comprado. Sem brigas, sem discussões. Somos amigos até hoje.
A terceira foi pedir demissão. Eu precisava de um momento
sozinha de tudo, sem vínculos, para tentar me encontrar. Lógico que a fase do “sem
emprego” durou pouco, pois as contas continuavam passando debaixo da porta.
Voltei para a correria do dia a dia, a ansiedade a pino,
síndrome do pânico dando novos alertas para o meu corpo, mais consultas com a
psiquiatra somada às fórmulas inéditas de remédios que controlassem tudo isso.
Um tanto mais equilibrada, me deparo com o falecimento do
meu tio e padrinho há quatro meses. A vida parou mais uma vez. A morte de
pessoas as quais eu tinha – e sempre terei – um amor imenso é uma ferida aberta
que não cicatrizará nunca. Na verdade, eu não entendo como é que há forças para
levantar da cama e seguir. De onde vem? Eu não entendo.
Lembro quando a Cissa Guimarães falou: “Não é um dia após o
outro, e sim um minuto após o outro”. De minuto em minuto a gente procura
motivos que dê sentido para a vida prosseguir e, dessa forma, tentar reconstruí-la.
A chegada de cada um dos meus sobrinhos com certeza foi uma reconstrução. A
chegada da minha afilhada foi outro tijolinho que somou.
Quanto à minha vida, nessa incessante busca por algo que
possa representar um reaprendizado, resolvi largar tudo no Brasil e me mudar
para Portugal. Estou em Lisboa há três dias para zerar e recomeçar. Não teve
planejamento, tampouco pesquisa. Vim no susto e com muita vontade de viver uma
nova etapa totalmente diferente de tantas pelas quais eu estava acostumada.
Vim me encontrar na famosa expressão “ano sabático”. No meu
caso, nem tão sabático assim, porque quero – E PRECISO – trabalhar para me
sustentar. Não importa o que farei. Vim sozinha, com a cara e com a coragem.
Vim amadurecer, crescer mulher e sorrir das novas experiências que passarei. É
só isso que eu espero.

Comentários
Postar um comentário