Lá vamos nós
Hoje, sexta-feira, completo 1 mês morando sozinha em Lisboa.
Não vou entrar em todos os tipos de raciocínios que despertam e estão vinculados à expressão fui-embora-do-Brasil-pra-morar-sozinha-em-outro-país.
Quem vive na pele a experiência sabe o quanto é difícil pra cassete e, quem
ainda não viveu, tem uma ligeira ideia do turbilhão de emoções que esse tipo de
decisão acarreta. Um monte de gente já falou sobre isso e é isso mesmo. DIFICULDADES.
Por outro lado, vou falar de ansiedade. A minha é uma merda. E vem desde criança. Piorou aos 24 anos e despertou a síndrome do pânico (checked). Às vezes, nem o remédio me proporciona o equilíbrio necessário que uma vida
“normal” demanda. E foi só chegar a Portugal para reviver, durante os dois
primeiros dias, uma crise de ansiedade uó. Eu só pensava que o Universo
não poderia ter sido tão amargo, afinal, como pode tudo ter conspirado a favor
para eu chegar até aqui pra morrer sozinha? Será que eu tinha entendido todos
os sinais ao contrário? Pois é, tirando todo o chororô do aeroporto, o
desconexão da presença diária de pessoas que fazem parte da minha vida, o afastamento da grande família e melhores
amigas, eu ainda tive que lidar com isso: a porra dessa sensação destruidora que é a síndrome do pânico. Foi
assustador – pra não dizer aterrorizante.
E a primeira semana se passou comigo chorando [comigo mesma]
que nem louca, agarrada ao meu urso Polar. Todos os dias eu pensava em voltar. Cada segundo batia a certeza
de que eu tinha pirado e piraria mais ainda por ter alugado um estúdio de quinze
metros quadrados que nem uma porra de janela existe. Ah, tem é uma claraboia de um
metro por sessenta centímetros que não faz com que eu me sinta diferente de estar em uma
solitária em Alcatraz. Imagens do filme aparecem na minha mente.
Algumas taças de vinho me fizeram dormir nos piores dias. Em
um deles, já embriagada, bati na porta do vizinho para, quem sabe, ter alguém
com quem conversar e dividir uma breja. Bati uma, bati duas, até que resolvi sentar na
escada com a garrafa toda junto ao maço de cigarros. No dia seguinte uma
advertência chegou no meu e-mail:
“Lembramos que é proibido fumar
no quarto e nas escadas e em qualquer lugar”
Fuck you! Revirei os olhos e inventei a desculpa de que meu
intestino só funcionava a base de nicotina e que o locatário poderia ter um
problema futuro com saneamento. Escrevi a mensagem e apaguei, porque as letras
miúdas dessa advertência diziam que a próxima chamada de atenção (primeira
série do inferno!) viria com a cobrança de uma multa. Fuck twice!
No fim de semana desses primeiros dias bem complicados, Deus
olhou para a minha pessoa com dó. Meu telefone tocou e era uma amiga que havia
trabalhado comigo há nove anos e já morava aqui há algum tempo. Sim, esse
era o apoio que eu precisava. Eu precisava desesperadamente de um rosto
conhecido, alguém pra conversar ou ficar sentada do lado só respirando o
mesmo ar. E o apoio se transformou em dormir na casa dela, experimentar
bacalhau de natas, conhecer algumas lojas bacanas de Portugal, secar outra
garrafa de vinho, conversar sobre afastamento e comer o melhor arroz-doce que
já comi em toda a minha vida. Mulheres que apoiam mulheres, manja? Eu tive. Obrigada,
cara-pálida!
Chorei menos na semana seguinte. As entrevistas começaram a
pintar e as enrascadas também. Diz aí quem nunca recebeu a ligação de uma
empresa que se auto intitula “empresa de marketing”, mas, quando você chega lá
toda feliz e se achando a garota mais sortuda do picadeiro, é uma Herbalife, uma Amway da
vida ou qualquer empresa cuja proposta é baseada em pirâmides eternas que
prometem seja-dono-do-próprio-negócio e
conquiste-seu-primeiro-milhão-em-pouco-tempo? Não é uma delícia ter como
primeira “entrevista de emprego” um troço desses? Conforme o cara ia
falando sobre o quão éramos afortunados por estarmos reunidos ali, naquela minúscula sala baforenta, eu ia me odiando cada vez mais por dentro por ter comprado sapatos
novos um dia antes.
Saí de fina do lugar (que, diga-se de passagem, era longe
pra caramba de onde moro) e continuei a saga diária de ficar pendurada no
computador vasculhando todo o mundo cibernético a procura de um trampo decente,
quero dizer, qualquer coisa fora do estilo piramidal. E formam pintando. Cada
uma a seu modo, inclusive com direito ao assédio de um entrevistador que, por
eu ser brasileira, quis saber mais sobre mim aqui e acolá. Em outras palavras, ele estava
curioso para saber se eu sambava como as mulatas que ele assiste na TV (OI? OI?
OI?), se eu gostava de brincar de carnaval (OI? OI?), se eu já havia conhecido
alguém por aqui (OI?), se eu tinha trazido marido e filhos e como estava pensando em me
virar por aqui. Revoltante, né? Outro lugar que virei às costas e saí sem
olhar pra trás. Não sem antes dar uma balançada de cabeça de reprovação pro embuste bem na minha frente.
Na volta pra casa, no caso de me deparar com outros
camaradas do tipo, comecei a fazer as contas das minhas economias, do quanto é
ok gastar por dia para que eu pudesse, pelo menos, durar metade do ano semi-sabático
ao qual me propus. Daí, em meio às lágrimas, surgiu a pergunta: o que é que eu
tô fazendo comigo? Eu preciso passar por isso com tanto amor que tenho e sempre
tive na vida?
É assim: o lance aqui não diz respeito ao PRECISAR ou NÃO
PRECISAR. O verbo tá errado. E não sei se há o correto ou muito menos se ele existe. E se ele não resolver aparecer, não tem problema. Pode ser
que eu tenha vindo nessa nova jornada para descobrir o sujeito ou predicado dessa construção toda e o
verbo não faz parte.
Daí, a vida caminhou para a terceira semana com a visita de
um amigo queridíssimo que, óbvio, ficou na minha casa. Foi só na terceira semana
que fiz minha primeira balada por estas bandas. Na real, não foi uma balada, e
sim, uma sequência de entrada em vários lugares que fazem parte do Bairro Alto.
Acredito que eu nunca teria ido até lá sozinha. Aliás, me vejo fazendo várias
coisas que nunca imaginei. Por exemplo, eu nunca imaginei que entraria na Zara
com vários currículos impressos, com o objetivo de entregar um deles para
ocupar uma vaga como vendedora. Eu nunca imaginei que sairia da loja com um
baita sorriso estampado nos lábios. O nome disso: SATISFAÇÃO. Pô, de ser uma vendedora?
SIM, principalmente por isso. Da mesma forma entrei na Guess, na Pandora, na
Primark, na Cia. Marítima, na Swatch, na Accessorize. Com a mesma emoção saí de
todas elas: satisfeita. Por fazer algo que nunca fiz. Por me dar esse direito.
Por me escutar e entender. Pelo simples fato de querer viver algo que eu nunca
vivi. Afinal, a felicidade é medida em tudo o que se tem? (essa é uma pergunta
que só nos leva a pensar). Ou, como disse meu amigo: "quando eu morrer, vão olhar pro meu caixão e dizer 'Ótimo homem. Participou de três mil e quatrocentas reuniões durante a vida'". Qual o sentido de tudo, saca?
De acordo com o aplicativo de coração no meu celular, esse foi o dia que mais andei aqui. Foram 14.029 passos ao todo. O equivalente a 9,4 km só distribuindo meu currículo (depois desse dia tô viciada em olhar essa bosta de app antes de dormir). E não, eu não fui chamada para nenhuma destas lojas por enquanto. Por isso, nessa
última semana que passou, quando a bola foi baixando e as caraminholas começando a surgir, a resposta
positiva de um emprego fixo veio com tudo. Uma empresa espanhola que estava a
procura de uma brasileira para atender seus clientes brasileiros. Estava, porque achou. EU!
Cara! Como
assim? Sim, mil vezes assim. E como eu me senti? Plena. Plena da vida que
escolhi viver durante um tempo e que, graças a eta resposta, vai dar para viver durante o tempo que determinei. Plena, feliz, satisfeita e, pela primeira vez
em um mês, segura de que fiz a escolha certa quando resolvi juntar minhas
coisas na porraloquice e viver longe dos meus dois sobrinhos pequeninos, da minha afilhada que
vejo crescer cada dia mais linda, da minha mãe, meus dois irmãos que são Os Brothers
do auê todo e minha família que sempre é tão presente.
Persistência, meta, foco e a contagem de cada cêntimo está fazendo
a diferença. Não saio, não visito locais que precisam pagar, não viajo para
cidades vizinhas. Encontrei um bairro barato e não muito legal. Isso foi pra
começar. O resto ainda vai chegar.

Comentários
Postar um comentário