Mulheres com deficiência também tem desejo sexual
A BBC dedicou uma série espetacular para as mulheres.
Intitulada “100 Women Challenge 2017”, uma equipe foi atrás de mulheres
inspiradoras e influentes ao redor do mundo. Uma equipe que se dedicou a
encontrar histórias que merecem ser compartilhadas.
Aliás, todas merecem, pois todas tem algo a nos ensinar.
O blog Segredos de Anita defende o protagonismo feminino em
todas as áreas, principalmente no que diz respeito à liberdade sexual, a
importância de conhecer o próprio corpo e fazer dele o que quisermos.
Diante disso, quero compartilhar a história de Mitra, cuja
deficiência foi motivo de vergonha quando colocou as cartas na mesa para a sua
família de que tinha sim, desejos sexuais.
Um relato confiante e emocionante de uma pessoa que aprendeu
a se amar para amar o outro. E, como a própria intenção do projeto, inspirador.
Traduzi com muito amor para que todas nós possamos ter acesso.
BBC World
9 de dezembro de 2017
Por Feranak Amidi
Mulheres com deficiência também tem desejo sexual
Mais de dez milhões de pessoas no Irã vivem incapacitadas,
de acordo com pesquisadores, mas a cultura ao redor deste tema é de longe um
motivo de vergonhas, escreve Feranak Amidi, jornalista do Bureau of Near
Eastern Affairs para a BBC.
Uma área que é particularmente um tabu nos países
socialmente conservadores é o sexo e, mais ainda, as necessidades sexuais das
mulheres com deficiência.
Aqui, Mitra Farazandeh, de 41 anos, que vive com deficiência
em uma pequena aldeia no norte do Irã, descreve sua própria experiência - e
frustrações.
Eu sou uma mulher. Sou uma mulher com 75% de deficiência
física. Sim, experimentei o amor
Eu sempre digo que uma pessoa que não experimentou ou sentiu
amor é como um espantalho em uma fazenda - sem vida.
Tinha 11 anos quando percebi que tinha um sentimento
especial pelo filho do nosso vizinho. Esse sentimento não fez sentido para
mim.
Naquela época, eu não me considerava humana. Por causa da
minha deficiência e deformidade, não acreditei que eu merecia viver. Eu estava
esperando o momento indesejado da morte.
Por 14 anos, enterrei esse amor dentro de mim. Eu guardava
isso só para mim. Depois de 14 anos, decidi me curvar a este amor e confessar a
ele e à minha família. Ele recebeu meu amor, mas minha família não aprovou.
Isso fez da minha vida um inferno por alguns anos. Mas meu
amor por ele me ensinou a me amar também - moveu algo dentro de mim.
Eu amei esse homem por 30 anos, embora nunca tenhamos estado
juntos.
A verdade é que, independentemente da minha deficiência, sou
uma mulher com todas as necessidades e sentimentos que uma mulher tem.
Quero que meu amante me segure em seus braços à noite e
acaricie meus cabelos. Infelizmente, muitas pessoas em nossa cultura acreditam
que mulheres como eu não merecem amar ou serem amadas. Isso me causa dor.
O fato de meu pai não me permitir estar com alguém que eu
amo me dói.
Muitas outras mulheres com deficiência como eu sofrem porque nossas
necessidades sexuais e emocionais são suprimidas.
Eu acredito que a mudança mais importante precisa vir dentro
de nós mesmas. Somos nós que precisamos aceitar nossas habilidades e limitações
sexuais.
Precisamos acreditar que merecemos viver a vida ao máximo e
apreciá-la, independentemente das nossas deficiências. Uma vez que acreditamos
nisso, as pessoas ao nosso redor também começarão a respeitar nossas
necessidades.
Conheço muitas mulheres portadoras de deficiência, cujas
famílias desconhecem que essas mesmas mulheres também são seres sexuais. Tudo porque elas não conseguiram acreditar nelas. Se você não acredita que você merece
ser amado, como sua família pode acreditar?
Embora meu pai ainda insista em suprimir meus sentimentos,
estou orgulhosa de ter expressado minhas emoções e necessidades. Minha crença
no direito de viver uma vida plena me permitiu superar muitos obstáculos e
ganhar liberdade.
Ainda há muitas pessoas que acreditam que as necessidades
sexuais e emocionais das mulheres com deficiência não são uma prioridade. Mas a
verdade é muito diferente.
Todas as pessoas - homens e mulheres, capacitadas ou
incapacitadas - têm um espectro de necessidades emocionais e sexuais.
Pessoalmente, acredito que, às vezes, a energia sexual das
pessoas com deficiência pode ser mais forte do que aqueles que não a têm. Talvez porque é impossível para alguns de nós, que sofrem de uma
incapacidade física severa, de liberar nossa energia da maneira usual.
Essa energia excedente pode se manifestar como uma força
sexual.
Penso que, se as necessidades sexuais de uma mulher
incapacitada não forem atendidas, pode ser muito prejudicial.
Nossa deficiência física pode ser sentida como um casulo nos
segurando.
Liberar nossa energia física e sexual nos daria mais espaço
nesse minúsculo casulo.


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