O machismo presente na alta gastronomia


Sou viciada em séries. Vejo todas. Até aquelas que não gosto para, no final, falar, não gostei por causa disso, disso e disso.

Poucas são as que deixo de ver. Uma que eu simplesmente AMEI é Chef´s Table (dá até vontadinha de colocar um avental e começar a me aventurar pela cozinha da minha casa...rs).

Amei porque me deslumbro com a criatividade e onde os chefs de cozinha buscam inspiração. No episódio um da primeira temporada, o chef Massimo Bottura buscou a sua em uma galera de arte, assim como o renomado Grant Achatz, na segunda temporada, encontrou a sua na magia. É uma coisa de louco!

As minhas razões para acompanhar param por aí. Porque, mais louco do que atentar para as diferentes causas que levam ao estímulo de criar é a quantidade de mulheres que fazem parte de cada temporada: uma na primeira e duas na segunda e terceira.

Pior do que esta constatação, é evidenciar que, ainda como estrelas premiadas da mais alta gastronomia, mulheres sofrem o machismo opressor de que estão no lugar errado.

Sim, porque, de acordo com os frequentadores do N/Naka, por exemplo, Niki (dona do estabelecimento) deveria estar naquela cozinha que faz parte da visão maternal da esposa servindo seu marido, saca? Foda, né?


E ela chama atenção para o fato sem problema algum – ou, talvez, sua intenção era despertar a sociedade em que vivemos. Sem medo, sem restrições de expor o preconceito, ela termina seu episódio fechando a imensa janela que separa sua atarefada cozinha do ambiente onde as refeições são servidas. Faz isso, porque, até hoje, é hostilizada quando algum cliente camarada machista sabe que, por trás de todo aquele talento, brilha uma mulher que comanda e administra um restaurante top.

Diferente do que aconteceu com a eslovena Ana Roŝ. Seu marido a convidou para ajudá-lo a tocar o restaurante, fruto de herança paterna.

Deste ambiente triste, desumano e agressor em que vive Niki, pesquisei sobre o assunto. Por que o autoritarismo, a hierarquia, a falta de gentileza, o machismo e muito mais, são o prato principal dessa profissão que renega mulheres?

O SENTIDO – que não faz mais sentido

A culinária profissional, como conhecemos hoje, surgiu na França entre os séculos 18 e 19. Próximo ao século 20, o chef francês Auguste Escoffier, começou a usar parte dos seus conceitos para estabelecer mudanças na maneira como os pratos eram preparados.

O jornalista Marcos Candido escreveu uma matéria para o UOL onde aborda este mesmo tema e suas mazelas. Lá, ele traça o perfil de Auguste. Ex-militar, ele elaborou o “sistema de brigada”, no qual há uma religiosa hierarquia para definir as funções de cada profissional dentro da cozinha.

A personalidade autoritária do ex-marinheiro é tida por historiadores como um dos ingredientes para o atrito entre as “classes” gastronômicas, sendo que seus traços e preceitos ecoam pelas escolas e cotidiano da gastronomia até hoje.

Um dos exemplos é o trabalho sob alta pressão – horas consecutivas de esforço, ordens e insultos.

E onde entra o machismo resultante de séculos atrás? Escoffier dizia que a culinária profissional era uma "arte elevada" exclusiva para homens. Para ele, mulheres deveriam preparar pratos mais “simplórios” para o marido e os filhos. Claro, em casa.

Para enfrentar esta hipocrisia frenética, vou aqui homenagear algumas estrelas femininas que desmistificam a história que foi criada – além daquelas que já citei aqui e que fazem parte da série que deu início a este post.

Em julho deste ano, a Revista Exame publicou 11 mulheres que comandam a gastronomia brasileira. Todas merecem estar aqui. Aliás, minha avó que cozinha “para um caraleo” também merece. Que todas se sintam representadas de alguma forma por estas lindezas.

Vamos a elas:

Helena Rizzo

Em março de 2014, o título de melhor chef mulher do mundo, dado pela Veuve Clicquot no prêmio "The World’s 50 Best Restaurants". Em 2013, ela já tinha ganhado como melhor chef mulher da América Latina, pelo mesmo prêmio


Roberta Sudbrack

Foi a primeira mulher a ocupar a função de chef do Palácio da Alvorada, durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em 2012, ela esteve à frente da equipe de cozinha da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Londres.


Ariani Malouf

Proprietária do restaurante, a cuiabana Ariani Malouf estudou gastronomia na unidade francesa da escola Le Cordon Bleu


Mara Salles

Um dos principais ícones da comida brasileira. Com suas receitas de traços coloniais e influência indígena, o estabelecimento foi um dos 12 eleitos na categoria Consagrados da revista Gosto, que escolheu os 60 melhores de São Paulo


Paola Carosella

Antes de chegar à terra tupiniquim, atuou na França e na Inglaterra. Já no Brasil, ajudou a abrir o Figueira Rubaiyat e recebeu diversos prêmios. Entre seus troféus estão o de chef revelação, em 2005, pela revista Gula, chef do ano, em 2010, pela revista Veja São Paulo Comer e Beber, e melhor restaurante variado pela mesma revista, em 2009 e 2010.


Gabriela Barretto

A chef Gabriela Barretto é a mente e as mãos por trás do cardápio do restaurante Chou, em São Paulo, e se consagrou como uma das melhores do país.


Janaína Rueda

O currículo de Janaína Rueda, chef do Bar da Dona Onça, em São Paulo, tem importantes conquistas, como o prêmio de melhor bar e e o de melhor feijoada no ranking Melhor de São Paulo 2010-2011.


Ana Luiza Trajano

Levou o prêmio Paladar, do jornal O Estado de São Paulo, na categoria Trivial, e, no final de 2013, seu trabalho deu origem ao livro “Cardápios do Brasil”, com receitas e experiências culinárias.


Ana Soares

Como se não bastasse o sucesso na cozinha, ela ainda atua como consultora e já criou a implantou mais de 60 cardápios em estabelecimentos espalhados pelo país.


Carla Pernambuco

Tem um currículo extenso. Além de comandar a cozinha do restaurante paulistano Carlota e de tocar, com a sócia Carolina Brandão, o Las Chicas, ela ainda apresenta a série de TV “Brasil no Prato”, do canal Fox Life, é blogueira, palestrante, colunista e autora de seis livros de culinária.


Morena Leite


Em 2011, a revista Go Where Gastronomia deu a ela o prêmio de Melhor Cozinha Brasileira e, no ano seguinte, ela se tornou apresentadora do programa culinário “Taste It!”
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P.S.: se você quiser ler a íntegra da matéria que cito - e utilizo partes - CLIQUE AQUI. Você será direcionada para a matéria "Machismo e suicídio" escrita pelo jornalista Marcos Candido.

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