Meu direito de ir e vir
Após sofrer um estupro dentro de um Uber, a escritora Clara
Averbuck escreveu, no dia 5 deste mês, uma matéria para o blog
#AGORAÉQUESÃOELAS, hospedado na Folha de São Paulo.
O texto – como um desabafo – fala sobre a importância da
educação, a construção da masculinidade, punição, Delegacia da Mulher e a
propagação da criação da hashtag #MeuMotoristaAbusador.
O texto está abaixo. E vale à pena cada palavra.
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A palavra é minha arma
POR #AGORAÉQUESÃOELAS
Por Clara Averbuck*
Foram noticiados
alguns casos de violência contra a mulher na semana passada. Friso “noticiados”
porque casos assim ocorrem todos os dias, a toda hora, e os números são
assustadores. Não foi uma semana atípica. Esses casos são constantes. E o que
mais vimos foi a sede de vingança, de dar o troco. “Castra! Estupra! Mata!”
Não precisamos de
castração para estupradores. Isso é coisa de sádico que ainda tem a coragem de
argumentar que o desejo diminui após o procedimento, como se estupro tivesse a
ver com desejo, e não com poder e dominação. Isso é coisa de sádico que prefere
mais violência em vez de educar e ressocializar um agressor, o que é possível
em muitos dos casos, como prova, por exemplo, o trabalho da Promotora de
Justiça Gabriela Manssur. O discurso da castração é coisa de sádico que
considera mais coerente seguir e aumentar o ciclo de violência em vez de rever
o que causa tamanha violência de gênero. Cabe dizer que alguns são doentes
mesmo, outros são monstros mesmo, mas agir como eles apenas demonstra a
barbárie desse tipo de pensamento. Eu não quero que ninguém passe o que nós,
mulheres, passamos. Quero que o cerne do problema seja tocado.
E o cerne é a
construção da masculinidade, calcada em violência, dominação e execração do
feminino. A punição que tantos conclamam não seria necessária se os homens não
fossem criados da maneira que são. Dizer que o agressor sexual vai virar
“mulherzinha” na cadeia, como tantos comemoram, apenas comprova meu ponto. É um
problema cultural. É “prende suas cabras que meu bode está solto.” É a
exaltação do garanhão que coleciona mulheres como carros. É tanta coisa errada.
Mas não se ofenda, homem; não falo aqui do indívíduo, você não precisa levar a
mão ao peito e dizer que nem todo homem, que você nunca, que, ora, jamais, que
até foi criado pela mãe. Nós sabemos que nem todo homem, mas também sabemos que
todo homem, sim, comete machismos cotidianos que passam despercebidos por serem
a norma. O machismo é o normal. O que muitos dos homens e mulheres entendem
como machismo é apenas o extremo, mas as atitudes diárias também contribuem
para a normalização de comportamentos violentos.
Violência não é
“coisa de menino”. Violência é coisa de quem aprendeu que é assim que se impõe.
Não é. Isso precisa ser discutido, mudado, repensado, reestruturado. Não
adianta nada falar em endurecer punições, mudar leis e abrir mares, se a
estrutura e o sistema, pensado por homens brancos e para homens brancos, não
mudarem. Nós vamos, sim, seguir fazendo pressão, mas vocês precisam repensar essa
mudança antes que tudo piore e, descrentes da lei e do sistema, as mulheres
passem a revidar também com violência. Com mais violência. Não é este o mundo
em que queremos viver. É? Se é a barbárie total que buscam, estão no caminho
certo. Não é este o mundo em que eu desejo viver, morrer e deixar para quem
ficar.
O que eu mais ouvi
foi: por que, em vez de ir para a delegacia, você foi para as redes?
Porque eu conheço
ambas: a Delegacia da Mulher e as redes sociais. Na delegacia, eu teria que
esperar, fragilizada, teria que explicar a violência e o constrangimento,
reviver e recontar a situação mil vezes, talvez e muito provavelmente a escrivã
estaria de má vontade, eu teria que entrar com algum recurso para que me
liberassem os dados do agressor por causa do Marco Civil (o que está
corretíssimo, pois, assim como protege os dados dele, o Marco protege os meus e
os seus), encontrar o sujeito mais algumas vezes — e seria a palavra dele
contra a minha. Quais as chances? Eu não estava com forças para aquilo. Já estive
na Delegacia da Mulher várias vezes para acompanhar mulheres agredidas. Já
relatei, em reportagem para o site de uma revista, o que se passa lá. Isso faz
dois anos. Não melhorou, não mudou. Não há estrutura, não há pessoal, é tudo
precário e sucateado. Vá a uma e depois converse comigo sobre esse mundo rosa
de conto de fadas que imaginam ser uma Delegacia da Mulher. Não desencorajo as
denúncias, mas fazer a crítica ao sistema é inevitável. Este serviço é vital,
mas, do jeito que está, não funciona, acaba por ser uma segunda violência e
precisa melhorar.
As redes sociais,
eu também conheço bem. Comecei a publicar na internet em 1998, antes de sequer
existirem, e os blogs tiveram papel central para a publicação do meu primeiro
livro. Imaginei que, fazendo um post, ainda com o rosto inchado e deitada na
cama, me ajudaria não só a me livrar da vergonha que não deveria estar me
acometendo (“Por que eu fui beber?!”, como se isso fosse o crime), mas também
ajudaria outras mulheres na mesma situação de violência e vergonha — que não
são poucas. A vergonha imensa de ter o corpo violado e de saber que vão duvidar
de você impede as mulheres de falar.
O Brasil é o quinto
país mais violento do mundo para ser uma mulheres – e o pior é acabar por ouvir
que mereceram [a violência]. Nossa pátria amada é a primeira do mundo em número
de assassinatos de travestis e transexuais, além de ter taxas assustadoras de
violência contra mulheres, sobretudo negras.
Então: por que eu fui às redes
sociais? Porque sabia que estaria falando por milhares de mulheres que são
atacadas, violentadas, assediadas, violadas. Não apenas na mesma situação que
eu, uma adulta atacada, que, dentro das estatísticas, é a menor parte. São 527
mil estupros registrados por ano no Brasil, segundo pesquisa do Ipea (a partor
de dados de 2011). Destes, 70% são contra menores de 17 anos, 52% contra
menores de 13 e cerca de 70% cometidos por conhecidos, dentro do próprio lar.
89% das vítimas são mulheres.
Quando vi que meu
depoimento estava virando notícia voltada para o sensacionalismo, retomei a
narrativa, conversei com algumas amigas e resolvemos criar a hashtag
MeuMotoristaAbusador. Em algumas horas, recebemos depoimentos horripilantes.
Não é questão apenas restrita a Uber ou táxis. Recebemos depoimento até de garotas
que pegaram caronas com amigos ou conhecidos e acabaram abusadas. Pois aquele
conhecido que força a barra, que põe a mão na sua perna, que tenta te beijar
contra a vontade, lamento dizer, também é um assediador ou um abusador. O cara
que força sexo porque você foi até a casa dele, o cara que não respeita seu
“não”, mesmo que você já esteja nua na cama com ele, esse cara também é um
agressor. Sexo sem consentimento não é sexo, é estupro.
Isso é uma pontinha
do que nos acontece. Uma pontinha.
Esperamos conseguir
ir além dessa pontinha que apareceu e discutir o problema a fundo. E não
adianta fazer isso apenas entre mulheres. Se quem está perpetrando a violência
contra a mulher é o homem, rapazes, vocês precisam conversar entre si e nos
escutar.
A palavra é a minha
arma, e é ela que escolhi usar.

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