Um poema eterno


Sabe aquele tipo de texto que você queria ter escrito? Por mais que eu já tenha tido a imensa vontade de vestir a carapuça de inúmeros parágrafos ou frases, este não é o caso. Afinal, ele é sim, exatamente o tipo que eu gostaria e PRECISAVA ler. 

Primeiro, porque acredito que eu não saberia transmitir tudo o que o ele passa, traduz e resplandece. Segundo, porque eu precisava me sentir abraçada por estas palavras. 

Sim, cada palavra precisava dos meus olhos para que todo o meu ser fosse capaz de transmutar e entender a verdade que existe em cada um de nós para, enfim, morrer e reviver.

No elevador do filho de Deus

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
Sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo e me torno moribundo de doer
Daquele corte do haver sangramento e forte que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
Dentro das perdas de coisas antes possuídas
Dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
Há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não me vejo ressurgida no banheiro feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala, nem informática nem cabala
Eu era uma espécie de Lázara
Poeta ressuscitada
Passaporte sem mala
Com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Ensaiar mil vezes a séria despedida
A morte real do gastamento do corpo
A coisa mal resolvida daquela morte florida
Cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
Cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
Que já tô ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
Às vezes só porque não foi um bom desfecho
Ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
Ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter
Nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
Não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
Uma espécie de encomenda que a gente faz
Pra ter depois ter um produto com maior resistência
Onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
E fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
Corta os cabelos
Muda a maquiagem
Reinventa modelos
Reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
Pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de ex-persona falida:
- Não, tava só deprimida.
De Elisa Lucinda


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