Sabe de nada esse Washington...
Falar sobre o empoderamento feminino é fundamental para abrir portas a novas mudanças em nossa sociedade. A entrevista de Washington Olivetto à BBC só mostrou que devemos falar ainda mais.
Até porque não vai mudar nada na vida deste senhor, que cuspiu e escarrou de forma rude. Mas vai transformar a vida de muitas mulheres. Sigamos em frente. #juntassomosmaisfortes
Uma das minhas amigas, comentou lindo: "Era uma vez, um publicitário renomado que, em pleno 2017, resolveu pensar com a bunda pra sair falando umas merdas por ai. To surpresa? Não. To chocada? Menos ainda. É só mais um que, ao invés de aproveitar o momento e usar o mercado para se renovar, resolveu ser âncora pra afundar com o próprio barco. Vá com Deus, meu filho!"
Outra amiga: "Eu acho que ele nem sabe o que é consumer insight".
para que você também possa acompanhar tudo o que foi dito, abaixo está a entrevista dele na íntegra.
BBC Brasil - A publicidade adotou temas que antes eram exclusivos
de movimentos sociais, como diversidade sexual e o feminismo. O que acha dessa
tendência?
Washington Olivetto - A publicidade, seja quando
começou, seja hoje, tem uma característica fundamental: a presença de uma
grande ideia. É a ideia que provoca aquele efeito de 'como não pensei nisso
antes', e ela é pertinente. É algo que tem a ver com o produto e com seu consumidor.
Não é uma grande ideia algo que seja simplesmente sensacionalista ou
oportunista.
Dentro desse critério, tudo o que está
na vida pode estar na publicidade, desde que seja pertinente. Tem música na
vida? Tem sexo? Pode ter (na publicidade).
Ciclicamente, mesmo antes desses
movimentos que acontecem hoje, a melhor publicidade sempre foi aquela que soube
perceber isso.
Quando fiz o Garoto Bombril, em 1978,
tinha detectado que as mulheres estavam cansadas de serem tratadas como idiotas
pela propaganda dos produtos de limpeza. E que a presença de um homem seria
surpreendente. Se ele fosse doce e delicado, melhor ainda.
BBC Brasil - Como o Woody Allen? Em outras entrevistas, você disse
que o estilo dele estava em alta na época.
Olivetto - As mulheres estavam achando mais
interessante a inteligência do Woody Allen do que os músculos do John Wayne.
Nos últimos anos, aconteceram outras
coisas, incluindo duas que considero muito ruins: surgiu fortemente a presença
do politicamente correto, que muitas vezes é bem-educado, mas é chato; e a
detecção do politicamente incorreto, que às vezes é engraçado e mal-educado.
No meio disso, tem um negócio que
batizei de politicamente saudável, que são ideias que tenham irreverência,
senso de humor, mas respeitem a inteligência das pessoas.
A publicidade no Brasil, por exemplo,
durante um grande tempo desconheceu a presença do negro - temos tantos negros
no país e poucos na publicidade. Nos últimos tempos, uma pressão dos movimentos
sociais fez com que a publicidade participasse de determinadas causas. Isso
pode ser feito de maneira oportuna ou oportunista, essa é a grande questão.
Tivemos uma experiência interessante
no ano passado, que lutei para que não ficasse oportunista e acabou muito
oportuna. Minha diretora de arte do Rio de Janeiro, que atende a L'Oréal,
descobriu uma transgênera, fez um comercial dela com sua primeira carteira de
identidade no dia internacional da mulher. Falei 'Não pode acabar nisso. Não
pode ser um comercial que ganhe um prêmio, tem que virar uma coisa grande'. Ela
virou a primeira porta-voz mundial transgênera da L'Oréal, virou capa da Vogue francesa,
enfim, se tornou um fato verdadeiro.
BBC Brasil - Hoje é mais oportunista do que oportuno?
Olivetto - Sempre será assim. Em causas sociais, a
maior parte delas contém um componente de oportunismo, infelizmente.
BBC Brasil - Há alguns anos, você deu a declaração de que o
politicamente correto estava matando a publicidade. Ainda pensa isso?
Olivetto - Sim, porque principalmente o pessoal
mais verdinho não cogita que tem o politicamente saudável no meio, então
elimina qualquer ideia que tenha uma conotação de irreverência.
Anos atrás fizemos um comercial do
(protetor solar) Coppertone, mostrando um cara que só usava Coppertone. Ele
estava com a mulher na praia e ela tinha esquecido de comprar o protetor. De
repente, vinha um gordo, muito gordo, passando Coppertone no corpo. (O homem)
saia correndo, gritando 'Alfredo', abraçava (o homem gordo) e se esfregava
nele. E, na verdade, eles não se conheciam.
Era só uma adorável brincadeira. Mas
se a gente fosse pensar 'ah, mas os gordos do Brasil vão ficar chateados, vamos
fazer com um magro', ia ficar sem graça.
Hoje essa capacidade da publicidade de
aderir a causas está vivendo um momento modal. Está na moda, depois tem outra.
Hoje, muitas editoras têm um
personagem chamado leitor sensível. Sabe o que é isso? É um cara para ler os
livros e detectar se tem algum trecho que vai dar problema com uma minoria. O
leitor sensível é um censor disfarçado.
BBC Brasil - Você acha que a publicidade perde ou ganha com a
maior interação do público pelas redes sociais?
Olivetto - A relação sempre foi de monólogo e
nesses anos virou mais de diálogo, mas evidentemente alguém tem que liderar
essa parada. Até porque eu, como publicidade, sou intromissão. Você não comprou
jornal para ver meu anúncio, você quer a notícia. O mínimo que o intrometido
tem que fazer é ser bem-educado. Isso é sedutor.
No fundo, muita coisa não mudou. Olha,
99,9% das mulheres no mundo gostariam de namorar com um homem bonito,
inteligente, charmoso, rico, simpático, bem humorado e bom de cama. Agora, se
um rapaz convidar uma moça para jantar e falar 'você já reparou como eu sou
bonito, rico, charmoso?', ela vai responder 'na verdade, você é um babaca'. Se
ele, sem dizer nada disso, conseguir passar tudo isso, ela vai se encantar. É
exatamente isso que faz a boa publicidade.
Publicidade não vende, cria
predisposição de compra. Quem vende é o dono da marca. Para criar predisposição
você tem que ser sedutor.
BBC Brasil - Não mudou o conteúdo, mas a forma como ele é
apresentado? A abordagem da publicidade precisa ser mais sutil?
Olivetto - Não, acho que cada vez mais a
honestidade é uma ferramenta de venda fabulosa. Cada vez mais a sedução é
eficiente. E não mudou a coisa de que você precisa ter uma grande ideia.
Outra coisa insuportável que a
publicidade cria ciclicamente, que a sociedade cria, são clichês
constrangedores do tipo "pensar fora da caixa", "quebrar
paradigmas", "desconstruir", agora o "empoderamento
feminino". Que são todos primos-irmãos de um baixo nível intelectual, são
primos-irmãos do "beijo no seu coração". A gente tem que fugir desses
clichês.
As pessoas ciclicamente saem repetindo
essas loucuras. Eu brinco aqui, "se alguém falar em quebrar paradigma, vou
jogar pela janela. Deixa o coitado do paradigma lá".
BBC Brasil - O empoderamento feminino seria o clichê mais recente?
Olivetto - O empoderamento feminino está
participando de qualquer reunião. Empoderamento feminino se pratica, não se
prega. Ele já existia na (campanha) Valisere Primeiro Sutiã. Existia no Garoto
Bombril.
BBC Brasil - Na sua opinião, quando se fala sobre empoderamento
feminino e não se mostra o que é, a mensagem fica mais pobre?
Olivetto - Exatamente. É que as pessoas não têm a
cultura disso. As meninas que falam sobre empoderamento feminino precisariam
saber uma história curiosa. No ano em que comecei a trabalhar, existia nos
Estados Unidos um cigarro chamado Eve, um cigarro para mulheres. Foi um
sucesso.
Anos depois, a Souza Cruz resolveu
lançar um cigarro para mulheres chamado Charm. Quem fez a primeira campanha foi
o José Zaragoza. Ele fez uma campanha brilhante que dizia 'No Brasil, toda
mulher tem Charm'. Tinha um outdoor que tinha desde a Leila Diniz, o tesão do
planeta da época, até a Clementina de Jesus, sambista negra maravilhosa. Charm
foi lançado e foi um fracasso. Por quê? As mulheres acharam que era um cigarro
para mulherzinha. Elas queriam fumar cigarros que nem de homem: empoderamento
feminino.
Fui trabalhar na agência e tivemos que
mudar a campanha. Ficou: "no Brasil, toda mulher tem Charm, só deixa de
fumar se você gostar muito dele", e botamos um homem junto. Salvamos o
Charm. Depois pusemos "o importante é ter Charm", que era genérico.
Tem que ter bom senso. Acho que a
vida, cada vez mais, é um gesto atrelado ao bom senso.
BBC Brasil - Mas estamos vivendo um momento de extremos, de
polarização. Falta bom senso?
Olivetto - Vai ter cada vez mais (extremismos),
desde que não haja lideranças em cada uma das áreas. O consumidor pode e deve
dar palpite, mas a principal função dele é consumir. Quero saber da opinião
dele? Claro! Mas se a opinião dele for estapafúrdia e mais cinco estapafúrdios
quiserem (o mesmo), não vou abrir mão das convicções da boa persuasão.
BBC Brasil - Você nunca fez campanhas políticas nem se candidatou
a cargos públicos. Hoje, vários publicitários e comunicadores estão na política
ou demonstram pretensões eleitorais, como João Doria, Luciano Huck e Roberto
Justus. O que acha dessa tendência?
Olivetto - São fenômenos individuais. Nunca fiz
nenhuma campanha política por atitude, mas acho que se fizesse faria mal,
porque sou treinado para tomar decisões profissionais. E as decisões na
política são políticas, não me daria bem.
O que vejo hoje é uma ansiedade do
quadro social por novidades nessa área e uma necessidade dos partidos
tradicionais de dizer que as novidades acontecerão. João Doria está no PSDB e
ainda temos uma possibilidade do Luciano Huck, (passa a mensagem) 'a gente está
de olhos abertos para o novo'.
BBC Brasil - Mas a estrutura partidária ainda é a mesma, não?
Olivetto - É, mas (o que acontece) é uma
mistura da ansiedade da população com uma necessidade do partido. A questão da
política é complicada, a capacidade de fazer acordos. Não me encanto com essa
ideia das pessoas estarem se xingando e dois anos depois estarem se beijando.
BBC
Brasil - Em outras entrevistas, você falou do conceito de "ética
elástica" na política. É isso?
Olivetto - Ética elástica é
muito bom....
Fui fazer uma vez uma palestra para o (sociólogo italiano) Domenico De
Masi. O tema de todo seminário era desconstrução: da política, da sociologia,
da lógica e a da comunicação, que era minha palestra.
Nessa palestra, contei uma história que preparei (para a ocasião), dizendo
que tudo poderia estar na comunicação se tivesse vida inteligente, se fosse
feito de forma inteligente.
É uma história aparentemente machista e que, no entanto, poderia ser
feita, seria eficiente, encantaria os homens, que seria o público, e não desagradaria
as mulheres. É a ideia de um monólogo do 'Por que Porsche é melhor do que
mulher que, diga-se de passagem, é excelente'.
O target do Porsche é 100% dos homens. Mas por que Porsche 'é melhor do
que mulher que, diga-se de passagem, é excelente'? É como um teorema, há uma
comprovação.
A primeira prova é que, se você tem um Porsche, que é muito bom, e você
tem dinheiro para comprar mais um, você compra, e o Porsche que você já tem não
fica aborrecido. Já (se) você tem uma mulher que, diga-se de passagem é
excelente, e fica com vontade de ter mais uma mulher, você vai ter um problema.
É a primeira prova da superioridade do Porsche.
A segunda prova é mais dramática. O sujeito tem um Porsche e resolve que
não quer mais ter aquele Porsche. Ele vende o Porsche e ganha o dinheiro. Já
(se) ele tem uma mulher que, diga-se de passagem é excelente, e resolve que não
quer mais ter mais aquela mulher, ele perde o dinheiro.
A terceira prova é a mais dramática de todas. Quantos homens você
conhece que têm um Porsche? Pouquíssimos. Quantos você conhece que têm mulher?
Um monte. No entanto, todos os que têm Porsche têm mulher e nem todos os que
têm mulher têm Porsche.
A história é essa e claro que as pessoas riem. Só que uma história dessa
você teria que complementar no público feminino. Você faz o quê? Você contou
isso nos cinemas, que seria o público do Porsche, e nas revistas femininas você
faz o anúncio do Porsche conversível, com uma linda mulher de cabelos
esvoaçantes e o título "um homem realmente interessante te dá de presente
um secador de cabelos como esse".
BBC
Brasil - Pensando no que as mulheres querem hoje, e falando também como mulher,
essa ideia não pode ser vista como ultrapassada?
Olivetto
- Isso está calcado num target muito
fechado. Você controla isso com a mídia onde você veicula. Porque o Porsche é
um produto totalmente segmentado. Você não põe o Porsche na novela das oito. Os
consumidores de Porsche você sabe exatamente onde estão.
BBC
Brasil - Mas para uma parte das mulheres esse tipo de propaganda seria
inaceitável em qualquer meio, porque você está comparando uma mulher a um
Porsche.
Olivetto
- Mas
aí você tem que cancelar a vida. Se partir desses princípios, você cria um
mundo totalmente antisséptico. Vai chegar à conclusão dos caras do Fahrenheit 451 (romance de Ray Bradbury), que vale
a pena queimar os livros.
A única maneira de você criar gente bacana, do bem, é as pessoas terem
acesso a diversos tipos de informação e depois elegerem a que preferem. É a mesma
(lógica) de quando surgiu o controle remoto. Falavam para mim: 'como vocês vão
fazer agora que as pessoas podem mudar de canal?'. Eu respondia 'gente, antes
de ter um controle remoto na mão, as pessoas têm na cabeça. Se não querem
(ver), desligam a cabeça, não prestam atenção'.

Comentários
Postar um comentário