Menina, tenho orgulho de você


Da janela da área de serviço do apartamento onde moro, avisto uma quadra de futebol. A quadra faz parte do complexo de lazer do prédio que subiu a poucos anos, bem colado ao meu.

Todas as noites das férias, um grupo de meninos se reúne para jogar bola. Não devem ter mais do que 13 anos. Por aí.

No meio deles, uma única menina, que também não deve passar da idade deles. Uma única menina!

Fico debruçada na esquadria de alumínio da grande janela de onde consigo ver a quadra, espiando e lembrando de mim mesma nessa mesma idade.

Ahhh...como eu gostava de jogar bola com os meninos do prédio onde eu morava. Sempre eu. Com meu bamba branco nos pés que ficavam encardidos minutos depois do começo de uma partida.

Minhas amigas, na época, ficavam olhando pra mim, dizendo que eu parecia um menino. Eu não ligava. Nunca liguei para as saias, os batons e as fitas nos cabelos. 

Eu queria mais era jogar bola. Até quebrei o dedinho da mão em um das vezes quando já tinha o título de goleira do time – auge da autoconfiança, fala aí?

Por outro lado, quem ligava para tudo aquilo era a minha mãe. Quando ela saía para dar uma espiada da janela do alto do sétimo andar e percebia que eu fazia parte da grande família de meninos e que, ainda por cima, gritava uns bons palavrões, ela descia até o térreo, ia até a quadra pouco se fodendo se a bola estava rolando, me pegava pelo braço e, enquanto me arrastava pelo piso de cimento pintado de verde, vinha aquele sermão dizendo em alto e bom som que aquilo era coisa de moleque. “Olha como você tá suja! Parece um moleque! Vão dizer que tive três meninos ao invés de dois”.

Era justamente nesse momento que minhas amigas riam da minha cara. E era justamente nessa hora que eu ligava. Nessa hora de risadinhas eu realmente ficava puta por elas estarem presenciando minha saída de campo num estilo nada convencional. Afinal, estava, mais uma vez, tomando uma lavada daquelas, com direito a sacudidas e castigo nos próximos dias.

Hoje, da janela da área de serviço, vejo essa única menina e morro de orgulho. Vibro quando ela faz um gol. Morro de inveja quando o jogo termina e ela tira as chuteiras pra ir embora para casa dela. Sim, porque a mãe dela não está nem aí porque ela joga com os meninos.

No mínimo, a mãe dela deve ser do time dela. Do time das meninas. Que não vê diferença de a filha subir machucada porque foi pra cima do menino na tentativa de tirar a bola dele. Não dá a mínima porque elas solta umas pérolas ou sobe com o tênis sujo.

Quantas vezes ouvi sermão porque minhas canelas eram roxas! Ou porque meu dente de leite havia caído no meio do campo por causa de uma cotovelada sem querer depois de um drible sensacional.

Eu ganhava estojos de maquiagem, pequenos pôneis de plástico e a coleção dos Ursinhos Carinhosos. Mas eu fiquei realizada quando quebrei a cara de um moleque porque ele me deu uma rasteira de propósito quando eu estava na cara do gol.

Fiquei realizada quando consegui esconder as aulas de futebol na academia que minha mãe me matriculou para frequentar as aulas de jazz.

E aqui tudo voltou no tempo. Essa menina de hoje me lembrou da menina que eu era. A menina livre que eu gostaria de ter sido por mais tempo durante a infância.

Eu sou uma mulher realizada, quer dizer, não sei se muito da minha falta de coragem e pulso firme podem ter ido por água abaixo por causa dessa época.

Não sou psicóloga e ainda estou caminhando nos estudos sobre o tema feminismo, mas será que a repreensão das partidas de futebol que deixei de participar, aos 13 anos, poderia ter algo a ver com o medo que tenho em enfrentar algo novo? Acredito que um dia encontrarei essa resposta.

A única coisa que passa em minha cabeça ao olhar o jogo que está rolando agora, é que todos nós – meninos e meninas – podíamos ser mais livres dos limites que eram – e ainda são – impostos.

Aquilo, há mais de 20 anos e até mesmo nesse momento – é só uma brincadeira de crianças, entre crianças que nada tem a ver com essas diferenças ridículas que passam através de gerações.

Eu sei que os tempos eram outros. E graças ao universo, o movimento feminista avança. Pouco, mas avança. Principalmente em países como a Suécia e Islândia.

E através desses movimentos, uma nova cultura vem se construindo. As mensagens de empoderamento estão se libertando e nos libertando cada vez mais.

Quer um exemplo lindo? Já aviso: você vai se emocionar.

Uma empresa de seguros de Singapura veiculou uma campanha que explora as diversas questões as quais as mulheres são submetidas desde a infância. O grande finale do filme deixa claro que o empoderamento pode e deve vir de dentro de casa. 

De mãe pra filha, de pai pra filha, de mães para filha... dane-se! O importante é que estereótipos podem e devem ser quebrados.

Dá uma assistida no filme:



Quer outro exemplo mara?

Nos Estados Unidos, duas mães (que por sinal também são irmãs), estavam cansadas de não encontrarem roupas confortáveis para suas filhas.

Tudo era cor-de-rosa demais ou colado demais ou curto demais. Sabe o que elas fizeram?

Simplesmente lançaram uma marca de roupas para meninas com uma pegada bem mais leve, porque tudo o que as filhas delas queriam era brincar. 

A marca Girls Will Be (CLIQUE AQUI se quiser conhecer mais sobre a marca) é tão contra estereótipos que acabou agradando mães de meninos também.


Ou seja, crianças são apenas crianças. O preconceito está na cabeça de gente retrógrada que, tenho certeza, nem sabem explicar o porquê ainda pensam de uma forma em extinção.

E você, menina, vá em frente. Você, menina, pode ser o que você quiser.

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