A vitória de Carmen Muñoz


Ganhar a vida com sexo. Não vou falar de tabus, porque isso já tem aos montes por aí. Nem de julgamentos. Não perco meu tempo com esse tipo de coisa.

Vou falar da necessidade. De uma mulher em especial. Vou falar de Carmen Muñoz.

Aos 22 anos e analfabeta, Carmen chegava à cidade com mais sete crianças para sustentar.

Lá, ao procurar emprego, ouviu dizer que o padre da Igreja Santa Teresa conseguia vagas como empregadas domésticas às mulheres que iam até lá.

Por quatro dias Carmen esperou o tal padre. Quando conseguiu falar com ele, foi dispensada sem ajuda. Saiu chorando da igreja. Por desespero e por ser tão mau tratada pelo padre.

Naquele momento, uma mulher se aproximou de Carmen e disse: “Aquele homem ali daria mil pesos se você fosse com ele”.

Resistências à parte, foi assim que sua história começou pelas ruas daquela cidade: “De agora em diante, meus filhos nunca mais passarão fome”.

Quarenta anos se passaram. Autoridades e cafetões exigiam sua parte em dinheiro. Sem contar a violência, o assédio sexual, o alto consumo de álcool e drogas a que se submetia – as duas últimas para aguentar tudo o que passava.

Apensar de tudo, Carmen conta à BBC Brasil que é muito grata. Seus filhos foram criados dentro de uma casa com comida para matar a fome diária que assombrava.

Aposentada das ruas, um dia, ao encontrar ex-colegas dormindo no lixo, Carmen se perguntou o que acontecia com prostitutas como ela quando ficavam velhas.

Sem saber ao certo a resposta, decidiu fazer uma campanha para criar uma “casa de repouso” para as profissionais do sexo aposentadas como ela.

Depois de muito tempo tentando – foram 13 anos seguidos – ela conseguiu convencer as autoridades locais a bancarem o projeto.

Sim, ela conseguiu fundar a Casa Xochiquetzal, o primeiro asilo para receber idosas que trabalham como prostitutas na Cidade do México.

O nome é em homenagem à deusa asteca da beleza e do poder sexual.

Além de ensinar novas habilidades às mulheres (quando a reportagem da BBC Brasil visitou o local, havia oficinas de joias e arranjos florais), a Casa Xochiquetzal também tem o objetivo de melhorar suas condições de saúde e bem-estar, promovendo aulas de autoestima, exames médicos e auxílio psicológico.

Uma das resgatadas, María Isabel, que entrou em depressão após perder a filha para a leucemia, ressalta:
"Esta casa me ensinou que minha vida vale muito a pena, que eu sou tão digna quanto qualquer outra mulher. Agora, eu digo que uma mulher pode até perder sua honra, mas nunca perderá sua dignidade."
Atualmente, existem outras 25 mulheres vivendo na Casa Xochiquetzal, com idades entre 55 e 80 anos. Boa parte já se aposentou da prostituição, mas algumas ainda trabalham. Nos últimos 11 anos, mais de 250 passaram pela casa.

Ainda há, porém, grandes desafios para se superar. As finanças da Casa Xochiquetzal vão de mal a pior - o projeto sofreu corte de verbas da Prefeitura e sobrevive graças a doações.

Não, eu não vou te pedir ajuda para a casa. Até porque não sei se existe algum meio para isso.

Estou aqui para contar mais uma história de superação. Mais uma história que nasce das garras de mulheres, como nós, que enfrentam seus piores dias e ainda fazem dele o melhor que podem.

Esta é ela. Carmen.



Você é uma mulher inspiradora.

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