Um livro pela metade


O que me chamou a atenção quando me deparei com a capa do livro "Me Descobrindo Mulher", da autora Manu Torres foi a sinopse. 

Depois de apresentar os dois protagonistas, lá estavam a pergunta e a exclamação que me fez debruçar sobre a história.

A pergunta: Será que os traumas de Isabela podem ser superados?

A exclamação: Você é frígida!

O livro não é de todo ruim, pois apresenta uma grande descrição a respeito de como uma mulher pode se sentir empoderada para reconquistar seu marido. Por outro lado, na minha concepção, essa coisa de emporadamento deve ser algo que qualquer mulher seja capaz de buscar para se sentir bem com ela mesma. 

Manja aquela expressão “ame-se primeiro para poder amar o outro depois”? Eu acredito piamente nisso.

E aí, a (re)conquista, o pensamento no outro, é a consequência de todo o processo evolutivo baseado na auto-confiança. Achei que o livro pecou nesse aspecto.

Outro aspecto que a obra derrapa é o fato de não aprofundar num problema que atinge cerca de um terço das mulheres que procuram ajuda na terapia sexual (e não fui eu que coloquei os números aleatoriamente; eles são fundamentados em pesquisas).

Porra! Era a oportunidade de ouro de a autora falar de forma informal – como segue todo o contexto – sobre as sessões de terapia que a protagonista passa. 

Afinal, esse problema ainda é um dos maiores desafios da psiquiatria e ginecologia. Sim, na absoluta maioria dos casos, o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos. 

O que percebi no livro foi uma inversão de valores, onde um simples banho de loja, a compra de sapatos do tipo “foda-me”, aquisição de objetos eróticos e roupas sensuais que as amigas lhe impuseram a comprar para se sentir poderosa, fossem o remédio para voltar a ter orgasmos.

Garotas, ninguém precisa ser bidú para saber que a mudança vem de dentro pra fora e não o inverso. Sapatos, maquiagem, vibradores e lingeries são o segundo passo - e sim são importantes.

Ok, você pode até pensar que eu deveria compra um livro didático sobre o assunto, certo? Certo. Mas qual é o problema de eu querer me enxergar na personificação de uma profissional competente, independente, casada, linda, respeitada, dona de uma vida atribulada e ainda por cima querendo se descobrir mulher? Saber a construção positiva de algo que envolve o desempenho sexual na voz de uma mulher comum? Lógico que eu quero!

Infelizmente o negócio da frigidez é mais embaixo, porque vem acompanhada de sentimentos de frustração, vergonha, mágoa e culpa. Pô, em um momento da minha vida, eu já pensei que estava passando por um troço igual!

Num site sobre Medicina Psiquiátrica ao qual tive acesso, há uma frase que me deixou profundamente triste: “A constatação da frigidez é mais uma confissão constrangida do que uma queixa médica”. E é esse constrangimento interno que passa a fazer parte. É muito foda.

Dá pra imaginar como me senti? É como se todas as minhas expectativas sexuais ou amorosas estivessem destinadas ao fracasso. Pois é, eu me senti uma fracassada. Desesperada por uma fórmula mágica que fizesse reverter meu sentimento.

O fato é que a terapia ajudou a entender que existem outros fatores relacionados a esse problema, como a educação recebida, por exemplo. Esse foi meu ponto crucial para entender e separar o joio do trigo. Compreendi a diferença entre não ter prazer fazendo sexo e não conseguir fazer sexo. Foi um transcurso longo, de muita choradeira e descoberta.

O melhor de tudo é: precisamos entender o nosso corpo e nossas emoções para buscarmos o equilíbrio da mente que distorce muita coisa que não conhecemos, mas que estão enfurnadas em nossa alma.


No final das contas, excelente, boa ou ruim, toda leitura é válida, pois sempre há a reflexão sobre determinado assunto.

O LIVRO

A sinopse que você vai encontrar por aí:

Isabela Alencar havia sido criada para odiar o sexo e jamais deixar que um homem virasse sua cabeça. Isso foi fácil até se formar na faculdade e ir trabalhar na Clínica Médica do seu pai, onde um competente cardiologista mexe literalmente com o seu coração.
Leonardo Menezes é um cara comprometido com a profissão e também é muito sério. Ele parece inacessível dentro e fora do Hospital e da Clínica onde trabalha. Mas Isabela Alencar, que é fisioterapeuta e filha do dono da Clínica, lhe tira dos eixos, e três meses, depois que a conhece ele a leva ao altar e lhe jura amor eterno.
Será que os traumas de Isabela podem ser superados?
O amor de Leonardo por Isabela transportará essa barreira?
Você é frígida!

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