O CERTO e ERRADO que me detonou aos 13 anos


Eu me lembro tão claramente da cena: sentada em algum canto do meu quarto, lendo a seção CERTO e ERRADO da Revista Capricho, me culpando e me martirizando diante das fotos.

Lembro de ficar me perguntando: “Por que as fotos em que a editora de moda classifica como ERRADAS, tem sempre a imagem de uma gordinha toda espalhafatosa, enquanto a fotos rotuladas como CERTAS são estampadas por uma menina magrinha sempre estilosa. De preferência, de cabelos lisos ao vento e óculos escuro espelhado?”

A calça era a mesma. A camiseta também. Tenho plena certeza de que o modelo dos sapatos era parecido, se não fossem confeccionados por marcas diferentes.

Mesmo assim, a classificação das fotos sempre as diferenciavam. Eu não cabia nos padrões tidos como CERTO. E isso era o fim.

Pois é, me recordo de parar diante do espelho durante algum tempo e ficar me olhando, me olhando e me olhando. Porque sim, eu fazia parte do time das gordinhas com as coxas grossas, onde não existiam roupas certas para mim – de acordo com as publicações voltadas para as adolescentes da época. Não sei se isso ainda existe. Espero que não.

Depois de muito me analisar – e me cansar de trocar de roupa inúmeras vezes – eu logo metia um moletom amarrado na cintura para tentar disfarçar aquele conjunto todo desproporcional.

O engraçado é que, por mais que eu tenha passado – e ainda passo, por sessões de terapia – tem coisas que realmente ficam marcadas na alma e não há santo que as tirem da cabeça. 

Acredito que hoje, provavelmente, eu leria a mesma seção e arrancaria a página só de raiva. Aliás, nem sei se eu compraria uma publicação desse tipo ou indicaria para a minha afilhada. Com certeza não.

Mas, aos 13 anos, eu não era assim. Eu era uma figura problemática demais e as imagens maravilhosas e impecáveis da Ana Paula Arósio e Luana Piovani vagavam pela minha cabeça lembrando que eu era uma pessoa fora da curva.

 


Eu sei que pode parecer absurdo, mas eu tinha medo de ir em algum shopping, ser fotografada e, sem querer, me deparar comigo mesma no quadradinho ERRADO da revista.

Seria cômico se não fosse trágico.

Daí a gente vai crescendo. Vai começando a se enxergar, notar as qualidades que são destacadas pelos outros e deixar (pelo menos um pouquinho), as nóias de lado.

O tempo vai passando e nossos olhos abrem mais um tantinho para a crueldade que a indústria e a sociedade fazem com a cabeça de uma adolescente de 13 anos cheia de vida, por ditarem regras incabíveis.

Ao longo do árduo processo, entre informações, formação de personalidade e conhecimento adquirido, num momento de estalo, a gente passa a perceber que, sim, eu também pertenço a esse mundo, porra!

Foi essa frase, apenas essa frase que li sem querer (por mais que eu não acredite em “sem querências”), que fez com que eu voltasse no tempo. 

O tempo onde eu tinha as roupas ERRADAS e uma aparência também ERRADA.

Uma reportagem da Vogue UK (se quiser ler na íntegra, CLIQUE AQUI), realizada em fevereiro desse ano, dá destaque para a coleção que o estilista Prabal Gurung apresentou na Semana de Moda de New York.


Entre modelos magras, há peças lindas confeccionadas para o tamanho plus size. A frase a qual me refiro veio dele, diante de uma pergunta desembestada que foi referida ao moço: “Por que você também faz moda pra gente gorda?”

A reportagem destaca que ele teve uma reação séria diante do questionamento e a pessoa que fez a pergunta logo emendou: “Não, é apenas uma brincadeira.”

Foi então que veio a resposta nos moldes golpe fatality Mortal Kombat e a frase que me motivou a escrever este post:

“Isso não é engraçado. As palavras são muito poderosas e elas afetam a vida das pessoas. A maioria das mulheres não tem voz, sentem-se que não pertencem ao mundo e eu quero que elas sintam o pertencimento sim. São pessoas como você que me fazem ter certeza de que estou no caminho certo.”

Ok, quando eu encontrar com ele, vai ganhar um beijo na boca. De língua.

Vejo, hoje em dia, centenas de inspirações que servem para que eu abrace o meu corpo, o aceite como ele é e mentalize firmemente: "ele é só meu e é lindo".

Dá uma olhada em alguns dos looks da coleção de Outono/Inverno 2017 de Prabal Gurung, meu novo ídolo:




Fonte: Vogue UK

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que Ashley tem a nos ensinar?

Sessão de terapia - o limite do amor...próprio

16 mulheres viajantes que nos inspiraram em 2017